Psicose.

A mente fervilhava, parecia querer explodir, mostrar ao mundo a importância do sonhar. Mas ele apenas caminhava, com seus fones nos ouvidos, a música, mesmo no mais alto volume, era inaudível tamanha baderna em sua cabeça, discutia consigo mesmo, tentando organizar sua algazarra interna. Ao escutar o trompetista da praça acalmou-se um pouco, ensaiou alguns passos, equilibrou-se na ponta de um pé e girou o corpo, pousando com certo desequilíbrio, rindo-se, enquanto era observado pelas pessoas que seguiam seu caminho rotineiro. Deviam pensar que era louco.
Retomou seu caminho, despedindo-se  com um gesto teatral. Observava tudo sob uma nova ótica, as ruas, as pessoas. Duas em particular lhe chamaram a atenção, primeiro, o vendedor de flanelas, conhecido pelas sonoras gargalhadas e por, nos últimos meses, contar vantagem por "estar grávido" com sua esposa, hoje abrigava um olhar triste, vazio. "Será que algo aconteceu à criança? Ou será que foi com a esposa?". O mais triste era notar que ninguém mais percebia a tristeza incomum daquele jovem.
Sua cabeça voltara a ferver com as inúmeras possibilidades (in)imagináveis para cada rosto que fitava enquanto percorria o trajeto para o trabalho. Ao atravessar a Av. Rio Branco, rua movimentada do Centro, deparou-se com uma moradora de rua frente à estação da Carioca, usuária de entorpecentes - dizia com certeza pois segurava em sua mão direita uma cachimbo de pedra (de crack) - na mão esquerda segurava um grande paralelepípedo, olhava para ele fixamente, como se estivesse esperando respostas para suas perguntas não feitas. Mais uma vez inquietou-se com o olhar apagado e sem vida daquela mulher e pensou consigo "Não é possível que ninguém mais perceba o quanto ela está perdida", mas era possível, as pessoas que a notavam ali, sentada no chão, direcionavam a ela apenas olhares reprobatórios, cheios de asco e soberba, sentindo-se superiores em seus ternos e saltos.
Hoje Pedro não tinha pressa, caminhou tranquilamente, como se fosse a primeira vez, bateu continência ao Almirante e atravessou-o, sentindo sobre si os olhares e ouvindo gritos de "Louco!".
Em sua cabeça.

1 personagens:

João N. Guimarães disse...

Loucura é fato consumado entre racionais. Loucos são os sãos.

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